Em breve, grávidas saberão qual a probabilidade de ter bebê com microcefalia em caso de zika

Em breve, grávidas saberão qual a probabilidade de ter bebê com microcefalia em caso de zika

R7
Zika pode ter ligação com caso de microcefalia Reuters

Estudos em andamento no Brasil tentam descobrir qual a probabilidade de uma grávida que contraiu zika na gestação tenha um bebê com microcefalia. Hoje, ainda não se sabe qual o percentual de pessoas que contraíram o vírus poderão ter complicações, como bebês com microcefalia ou a Síndrome de Guillain-Barré, uma doença que paralisa o corpo.

Para o Ministério da Saúde, no entanto, é certo que apenas uma minoria dos casos de infecção pelo zika evoluem mal, tanto para gestantes como para não gestantes. O que não significa que as pessoas devam ficam tranquilas quanto à doença, que pode ter complicações graves e é ainda muito desconhecida. Só os estudos em andamento poderão trazer algumas respostas aos médicos brasileiros, como por exemplo sobre as três mortes que aconteceram no Brasil em decorrência do zika e que não tinham relação com os casos com Síndrome de Guillain-Barré, os mais graves até agora.

Estas são algumas das conclusões da entrevista exclusiva que o diretor Departamento de Vigilância de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Cláudio Maierovitch, que está à frente do combate ao zika no ministério deu ao R7, em Brasília. O diretor também falou sobre a luta contra o mosquito Aedes aegypti. Leia abaixo trechos da conversa:

Zika deve atingir o Brasil todo, mas com impacto menor, diz diretor do Ministério da Saúde

R7 — Sabemos hoje qual porcentagem de pessoas que têm zika que têm complicações sérias, existe essa conta?

Cláudio Maierovitch — Não existe. O que nós sabemos é que as complicações são raras. A complicação que tem sido mais falada no mundo que já era conhecida anteriormente que é de um síndrome neurológica causada pela infecção do vírus, pelo que nós vimos no Brasil, foi um complicação rara. Nós devemos ter tido poucas centenas de casos no ano passado [de complicações] frente a centenas de milhares de casos de infecção pelo zika. Mas ainda não temos nenhum cálculo que possa nos dizer a proporção real.

Em relação a microcefalia, não existe hoje qualquer tipo de cálculo. Nós temos estudos hoje, em andamento, alguns podem nos dizer qual o risco que uma gestante tendo o zika, qual a chance que ela tem de ter uma criança com microcefalia. Hoje esse dado não é conhecido em parte alguma do mundo.

R7 — As pessoas podem então ficar tranquilas? Tem pessoas que têm medo que se tiverem zika podem ter até uma complicação numa futura gravidez, por exemplo?

Cláudio Maierovitch — Aparentemente não [há esse risco]. Mas não acho que as pessoas devam ficar tranquilas com a zika que é uma epidemia nova e que pode ter consequências graves. Se as pessoas ficarem muito tranquilas elas não vão fazer o que deve ser feito para diminuir a quantidade de mosquitos e para ficar alerta em relação à doença. O que sabemos é que as complicações nas pessoas que não são gestantes são muito raras [Síndrome de Guillain-Barré]. Em relação a gestantes a gente ainda não sabe quais os riscos de havendo infecção, ter doença grave.

Nós tivemos três casos de morte relacionadas ao zika e que [as vítimas] não tiveram a Síndrome de Guillain-Barré. Então há aspectos da doença que ainda não são completamente conhecidos.

É importante explorar o espectro da doença. Ela pode gerar outras má-formações, outros problemas nervosos além da Síndrome de Guillain-Barré? Esses três óbitos, embora sejam poucos, será que foram relacionados a outra doença? São muito intrigantes essas questões. Nunca havia se ouvido falar em óbitos decorrentes da zika.

R7 — Há relatos de outras doenças decorrentes da infecção pelo zika que podem afetar bebês, como a hidropsia (acúmulo de fluido no corpo do bebê, que pode causar inchaço do fígado, problemas respiratórios, falência cardíaca, inchaço geral) e a hidrocefalia. O ministério monitora esses casos?

Cláudio Maierovitch — Nós estamos conhecendo as possíveis consequências da infecção pelo zika na gravidez. A que se mostrou mais preocupante até o momento foi da microcefalia, tanto pela gravidade quanto pela frequência. Pode ser que a microcefalia seja a manifestação mais visível de um conjunto mais amplo de alterações fetais. É possível. Desde que se começaram a observar os casos se falou também de casos de hidrocefalia, acúmulo de líquido na cabeça, e de hidropsia, acúmulo de líquido em várias partes do corpo do feto. Então é possível. Teremos que esperar um pouco quanto às descrições de casos.

Isso vale também para os adultos, com outros problemas neurológicos como inflamação do cérebro decorrente da Síndrome de Guillain-Barré ou consequências mais sérias que não seja decorrente da Síndrome de Guillain-Barré.

Tem uma máxima na Medicina que é não existe nunca e não existe sempre na Medicina. E a frase bonita é em francês: la medicine comme en l’amour, ne jamais, ne toujours. E isso serve pra tudo. Como no amor. Nós nunca vamos ter certeza. Existem indícios que na Síndrome de Guillain-Barré [decorrente do zika], não seja só Síndrome de Guillain-Barré. Que há casos que pode haver uma encefalite pelo vírus, mielite, que é uma inflamação da medula. Nós teremos que aguardar os estudos de quem se dedica a isso. Mesmo que isso seja verdadeiro o que nós temos observado não é uma explosão de casos. Temos um número bastante pequeno de casos com complicações.

R7— O combate ao mosquito [vetor do zika vírus que pode causar microcefalia] no Brasil está sendo efetivo?

Cláudio Maierovitch — Este é o momento que nós vamos começar a saber. Ainda não temos esse feedback. O que podemos dizer é que há uma mobilização muito grande, como nunca teve nesse País em relação ao combate ao mosquito. Tudo que sempre se acreditou no mundo em relação ao combate ao mosquito é o que deve dar resultado. É o que nós vamos saber acompanhando as curvas de dengue e zika agora, em um momento em que elas costumam crescer.

O Brasil já conseguiu acabar com o mosquito em dois momentos na história, mas era um contexto muito diferente. Nunca se produziu tanto lixo como agora, nunca houve tanta aglomeração como hoje. Estamos olhando para todas as possibilidades tecnológicas para acabar com o mosquito ou reduzir a chance que ele transmita uma doença. Como é o caso da bactéria Wolbachia, que não reduz a quantidade de mosquito, mas o torna imune ao vírus.

Algumas dessas estratégias são preocupantes. Por exemplo o mosquito transgênico. Depende da manutenção de um trabalho de soltura de mosquitos sem data para acabar. Se funcionar você tem que ficar soltando mosquitos geneticamente modificados semanalmente ou mensalmente. Essa manobra tem que ser sustentável.

Há a possibilidade também de se combinar tecnologias. Estamos em um momento de sair da bancada para a campo. Há propostas tecnológicas mas todas em escala bem pequena. Mas quando a gente fala em um País de 200 milhões de habitantes ou num continente de 400 milhões isso muda de figura, inclusive se há meios de se implantar essa tecnologia. Já houve conversa do ministério com líderes de projetos, e não se sabe se é possível aplicar num país inteiro porque as tecnologias hoje são aplicadas em pequena escala, levaria muitos anos para aplicar no país. O que existe de concreto e que está na mão do governo e da população é o que está sendo feito. É a única arma disponível nessa escala. Estamos tentando induzir os grupos que fazem experiências em lugares pequenos possam aplicar em escala maior. Estamos trabalhando em todas as frentes.

R7— Como é o combate em outros países?

Cláudio Maierovitch — O Aedes aegypti é um desafio mundial. Não conheço Cingapura, mas ouça falar de um lugar pequeno, rico e limpo, com um rigor em relação a limpeza urbana. E com recursos. Eles têm epidemia de dengue todos os anos e não conseguem acabar com o mosquito.

Fizemos seminário e fiz questão de trazer um representante de Key West, uma ilha de 25 mil habitantes com muito dinheiro, usam aviões, helicóptero, drones. Eles controlam a dengue . Mas eles não conseguiram eliminar o Aedes aegypti. Em uma ilhota cheia de dinheiro e tecnologia. Se eles não pararem o que fazem terão uma epidemia de dengue. Então a gente fica preocupado. Será possível acabar com o mosquito? Por isso não podemos deixar de investir em coisas mais difíceis, como uma vacina.

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