A síndrome do easy: os jogadores que escolhem o dinheiro ao esporte

A síndrome do easy: os jogadores que escolhem o dinheiro ao esporte

GQ Brasil


Tenho uma confissão humilhante a fazer: eu não consigo jogar Fifa 15 na dificuldade máxima. É vergonhoso. Eu sou o narrador do jogo, eu pratico desde o primeiro Fifa que saiu, lá em 1994… Mas não jogo na dificuldade máxima. Tentei, mas comecei a apanhar tanto do computador que precisei reagir, em nome da autoestima e da integridade dos objetos da minha casa.

Tinha vontade de quebrar tudo de tanta raiva. Comecei tentando na dificuldade mais alta e fui jantado pelo computador. Diminuí o nível, e continuei sendo amassado pela inteligência artificial a ponto de me sentir um burro natural. Até que achei minha dificuldade perfeita: “profissional”. São cinco níveis ao todo, e essa é a do meio, não muito prego, mas pouco desafiadora.

Eu fiz o certo, porque videogame é um momento de relaxamento. Não posso desligar o console mais nervoso do que ao ligar. Porém, há uma sequela perigosa: quando eu vou jogar contra um humano, a dificuldade é sempre mais alta que aquela com o computador “profissional” enfrentado por mim em casa. Estou feliz jogando sozinho, é verdade, mas eu não sou mais tão competitivo. Jogar contra o computador no nível “profissional” me tornou um gamer pior.

A mesma coisa está acontecendo com nossos jogadores de verdade, e é sobre isso que eu gostaria de conversar aqui com você. Tudo que eu contei ali em cima é uma analogia à última convocação da seleção brasileira, aquela que não ganha nem do Paraguai. Boa parte da nossa frustração recente com o Brasil é culpa da “síndrome do easy”.

Outro dia estava conversando com um jogador de que gosto muito e está em fim de carreira. Ele me disse: “Eu vou é pra Índia ou China, vou ganhar uma puta grana e vou meter gol pra caramba!”. Claro que vai! Vai ganhar dinheiro, ser ídolo e se sentir o Pelé. Vai deitar no campeonato. Todos esses mercados emergentes fazem bem para a conta bancária, fazem muito bem à autoestima… mas são fraquíssimos, há pouca competição.

Com todo respeito, o Shakhtar Donetsk só pode ser a base da seleção quando ganhar a Champions. Até lá, sorry, não pode. Shandong Luneng? Brincadeira, né? O jogador está rico, tem nome, mas ele não está competindo em alto nível! O cara desaprende, sim. O treino é diferente. Fiquei sabendo que em um desses campeonatos o cara chega a ter três dias de folga após um jogo, aí treina um dia, e joga de novo. É pouco. O adversário fica no modo easy o tempo todo. Como faz para enfrentar a Argentina depois?

Um atleta, para ser selecionável, precisa competir o ano todo em alto nível. Isso deveria ser premissa da seleção brasileira. Deveria haver uma regra da CBF proibindo a convocação de jogadores que atuam em mercados marginais. Como bem diz o Caio Ribeiro, o Shakhtar não tem mais pressão que nenhum clube brasileiro.

Torço muito pela felicidade de todos os jogadores que optaram pela China ou Índia. Mas torço mais ainda pela minha, que torço pela seleção.

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