O argumento da esquerda contra o controle de armas de fogo

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Esta matéria foi publicada originalmente na VICE US .

Na esteira do atentado em Las Vegas que deixou 59 mortos e centenas de feridos, a direita pró-porte de armas nos EUA tem defendido os argumentos de sempre contra o controle de armas: a Segunda Emenda nos dá o direito de acessar armas de qualquer tipo; precisamos de armas para lutar contra a tirania do governo; controle de armas não vai impedir atentados assim; doenças cardíacas matam mais norte-americanos anualmente que armas de fogo; assassinato é ilegal e isso não impede que as pessoas se matem o tempo todo.

Ainda assim, há menos atenção voltada para o pessoal da esquerda que também é contra o controle de armas. Mas eles existem. Os Panteras Negras defendiam usar armas para defesa pessoal, e o medo branco de negros armados ajudou a implementação da legislação de controle de armas. Hoje, o Dallas's Huey P. Newton Gun Club continua esse legado.

A ideia de que armas são capazes de garantir poder aos oprimidos não é única dos grupos de poder negro. "Controle de armas significa desarmar as massas revolucionárias e classes oprimidas", me disse um cara chamado William Gillis por e-mail. Gillis, um dos 15 esquerdistas com quem falei para esta matéria, chamou o controle de armas de "a pior ideia possível da história". Ele também me mandou o meme abaixo:

Por que você precisa de um cartucho de 30 tiros?

Nem todos os argumentos contra o controle de armas são fanáticos assim, mas muitos vêm de uma desconfiança fundamental no governo norte-americano. Alex Turner, um gerente de vendas de 24 anos do Kentucky, acredita que se não podemos confiar em Trump para não tuitar uma declaração de guerra ou no Partido Democrata para fazer primárias justas, então por que confiar no governo para regular armas de fogo? (Dos esquerdistas contra controle de armas com quem falei, a maioria era homem, eleitor de Bernie Sanders nas primárias democratas e não votou nas eleições gerais ou votou de má vontade em Hillary Clinton.)

As pessoas com quem falei não acham necessariamente que gente como o atirador de Las Vegas, Stephen Paddock, deveriam poder obter armas que causam mortes em massa, mas têm suas suspeitas sobre o governo expandindo seus poderes. Michaelantonio Jones, um trabalhador da área da saúde de 27 anos de Memphis, me disse que ele não acredita que "proibir todas as armas ou só aparar aqui e ali" é o jeito de remediar o problema com armas da nação.

"Não fico confortável em dar ao Estado — um Estado fundado e sustentado por genocídio, escravidão e roubo — o monopólio total da violência."

"Como homem negro de esquerda e do sul [dos EUA], dono de arma, acho a conversa sobre controle de armas nos círculos liberal e de esquerda muitas vezes mal informada", explicou Jones. "Sendo franco, não fico confortável em dar ao Estado — um Estado fundado e sustentado por genocídio, escravidão e roubo — o monopólio total da violência. Acredito que para pessoas que parecem como eu, entregar meios eficientes de defesa pessoal e confiar no sistema é suicídio. Além disso, não vamos esquecer que o controle de armas no final do século 20 nos EUA foi basicamente um esforço para desarmar pessoas não-brancas."

Outros concordam que o Estado não deve ter um "monopólio" da violência. "Oficiais da lei no geral matam mais por ano que terroristas ou assassinos em série", me escreveu Paul de Revere, um freelancer de 32 anos da Flórida. "Até que eles se desarmem, os cidadãos (especialmente os pobres e não-brancos morando em comunidades exageradamente vigiadas) também não devem se desarmar."

Esses argumentos são um eco um tanto irônico do pensamento das milícias de direita, que muitas vezes dizem que precisam de armas para se proteger do governo federal. Em qualquer um dos casos, a Segunda Emenda da Constituição Norte-Americana é vista como um baluarte contra a tirania, e ter armas é considerado um símbolo de liberdade.

Outros rejeitam a ideia de que legislação para controle de armas pode funcionar nos EUA como acontece na Austrália e Canadá. Ben, um escritor de 33 anos do Brooklyn, que pediu para não revelar seu sobrenome porque "ainda está no armário" sobre suas crenças pró-armas, me disse que acha que não há uma "utilidade" em aprovar leis de controle de armas mais rigorosas.

"Não acho que o modelo australiano funcionaria aqui. Há muitas variáveis", ele explicou. "Tenho medo de jogar com nossos direitos. Nossas liberdades nunca estiveram em maior perigo. A Segunda Emenda é a única com uma indústria multibilionária por trás. É a mais segura."

Quando falei com George Ciccariello-Maher, um professor de políticas da Drexel University, ele me disse que não estava tentando "defender o direito de ter armas automáticas ou algo assim", mas que em vez disso queria ir contra "uma certa narrativa [liberal] sobre controle de armas que é vendida como a solução [para a violência nos EUA], mas sem atenção aos detalhes de como isso vai funcionar".

Como outros que são céticos sobre controle de armas, Ciccariello-Maher diz que não acha que isso pode dar certo em primeiro lugar. "Sinto que se você não puder cometer suicídio com uma arma, você vai cometer suicídio de outro jeito", ele me disse.

Ruganzu Howard, um ex-policial de 37 anos de Seattle, explicou essa ideia em termos ainda mais simples: "muita gente tem opiniões e noções absurdas de 'bom senso' sobre leis de armas. Tem uma razão para não terem resolvido essa merda ainda. Não é o Partido Republicano malvado, ou o NRA, é porque os norte-americanos querem armas, porra."

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