O que significa a palavra 'queer' hoje?

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Esta matéria foi originalmente publicada na edição impressa de setembro da revista VICE .

Os adolescentes são cada vez mais queer. Segundo um relatório de previsão de tendências do J. Walter Thompson Innovation Group, pessoas de 13 a 20 anos (conhecidas como Geração Z) são até mais fluídos sexualmente que os millennials — enquanto 65% dos millennials se identificam como exclusivamente heterossexuais, apenas 48% da Geração Z faz o mesmo. A "tendência" não é lá grande surpresa. Fatores como o aumento das proteções legais, aceitação social e visibilidade da comunidade LGBTQ na mídia dão mais oportunidades para pessoas queer amarem abertamente. Dito isso, segundo a National Coalition of Anti-Violence Programs, um grupo de defesa de comunidades LGBTQ nos EUA, 2016 foi o ano mais mortal registrado para os LGBTQ, isso sem contar as 49 vítimas do massacre na boate Pulse.

A medida que a noção queer se expande e a necessidade de solidariedade política e resistência contra violência LGBTQ se torna maior, como podemos pensar criticamente e com compaixão sobre desejo, identidade e rótulos? Falei com Suzy Exposito, Ales Kot, McKenzie Wark, Whitney Mallet, Davey Davis e Javier Nunez Cespedes, um grupo de indivíduos que lidam com questões de identidade em suas vidas pessoais e profissionais, sobre amor com ou sem rótulos.

Ana Cecilia Alvareza: Qual a relação de vocês com questões de desejo e identidade?
Suzy: Sou uma mulher bissexual numa relação longa com um homem bissexual. Nesse ponto da minha vida, me recuso a sair com pessoas hétero. Pela minha experiência, eles não entendem certas coisas fundamentais sobre meus amigos e eu. Dito isso, eu poderia falar a mesma coisa sobre pessoas monossexuais. Já saí com lésbicas cis e senti uma falta similar de campo em comum. Como não "escolhi um lado", minha identidade sexual estava sempre em fluxo para elas e, portanto, não era confiável. Não acho que minha orientação sexual está em fluxo!

Ales: Antes de as pessoas usarem a palavra "queer" para me descrever, elas me chamavam de "esquisito". Aí me mudei para Praga para viver sozinho pela primeira vez; transei com garotas e garotos, e fiz ménages e sexo grupal. Sei que as pessoas têm essas imposições para o que significa ser queer para elas. Não quero estreitar muito isso. Se alguém me pergunta, digo que sou bissexual. Claro, dá para sentir algumas pessoas me julgando por isso. Mas, mesmo podendo me passar por um cara hétero, o fato é que sou um monstro sexualmente fluído.

McKenzie: Sou alguém que consegue se passar por uma pessoa hétero. Fico relutante em ser uma porta-voz do queer, porque posso evitar todas as dificuldades que envolvem isso. Não saio espalhando, mas se as pessoas perguntam, digo que já fiz sexo com homens e vou fazer de novo.

Javier: Sou um latino trans que se identifica como bissexual. Gosto de brincar que já me identifiquei literalmente com todas as letras de LGBTQ em algum ponto.

Ana: Se identificar — ou não — como queer resolve alguma coisa para vocês? Ou só complica?
Javier: Parte da beleza do "queer" é que o termo não precisa ter realmente uma definição e que o final fica em aberto, mas isso também pode ser um grande ponto negativo. Não tendo uma definição concreta, as pessoas podem usá-lo do jeito que quiserem e se apropriar do termo. Além disso, "queer" não diz nada sobre a sexualidade de alguém. Quando alguém me diz que se identifica como gay, lésbica ou bissexual, tenho uma ideia melhor de com quem elas se envolvem. Para mim, "queer" sempre teve um significado radical anti opressão e inclusivo trans, mas essa claramente não é a definição que todo mundo usa.

Whitney: Acho que eu me identificaria relutantemente como queer. Não vejo queer como uma identidade essencialista. É mais sobre se identificar com certas políticas. É uma decisão de que comunidade quero chamar de minha comunidade. As pessoas me perguntam se sou gay ou hétero. Às vezes penso, talvez aos 30 eu seja gay. Ou sempre vou ser vadia. Na vida, você está sempre se tornando, então tudo bem.

Davey: O mais maravilhoso sobre se assumir e encontrar um nome para você como queer é que você sente que lutou por isso. Meu parceiro e eu tivemos familiares que nos rejeitaram completamente. Então essa é uma coisa pela qual lutei, é minha identidade, quem eu sou — você tende a defender isso. Então vejo que algumas pessoas têm esse reflexo "Ah, eles são realmente [queer]?" A parte de mim que já esteve nessa posição sabe que é besteira, dizer tipo "Ah, eles não são realmente queer." E por mais que a gente lute por nossas identidades, ao mesmo tempo identidade é algo fluído, e essa fluidez é um desafio para muita gente. Mesmo se você é gender fluid ou sua sexualidade é fluída, rótulos são, por definição, rígidos.

Ana: Para mim, rótulos parecem imperfeitos, às vezes simplistas, mas politicamente necessários. Às vezes precisamos de solidariedade e identidades compartilhadas. O que vocês acham?
McKenzie: É crucial lembrar que há muitos homens que transam com homens que não acham que são gays. Eles não estão no armário ou em negação. Só têm categorias diferentes. Algumas pessoas não acham que fazer sexo com homens é uma identidade. É um ato, e você pode ter outros atos que faz e outras identidades.

Davey: Quando tinha acabado de me assumir, eu tinha esse instinto de usar taxonomia: "Sou um garoto feminino". Mas me afastei disso, porque tinha vivido tanto tempo como uma mulher não conformada ao gênero que visibilidade não era mais excitante. Percebi que ser visível não era tão incrível assim. É assustador, e a maioria das pessoas fora da sua comunidade te acham nojenta, e isso afeta suas chances de conseguir um emprego. Foucault disse que visibilidade é uma armadilha. Todos queremos ser vistos, compreendidos e conhecidos por quem somos, mas infelizmente, se você é queer ou bissexual, as pessoas vão te odiar.

Ana: Visibilidade é uma armadilha! Ou você é legível na cultura mainstream — consegue se passar — e não é visto como queer nas comunidades queer, ou é visivelmente queer, e portanto alvo de violência homofóbica e transfóbica.
Suzy: Visibilidade faz toda a diferença em como você experimenta o queer. Visibilidade te torna mais vulnerável a ataques. E é uma ameaça que nem todo queer enfrenta da mesma maneira. Sou uma mulher cis de cabelo comprido, e os homens me assediam o dia inteiro por ser mulher, mas ninguém sabe que sou queer a não ser que eu esteja com alguém que é visivelmente queer. Por outro lado, meu parceiro é drag queen e muito gender fluid, mas na maior parte das vezes ele se apresenta como masculino por segurança. Nos dias em que nós dois somos femininos, estamos muito mais propensos a assédio. A apresentação queer de todo mundo nem sempre é tão condicional, então temos que ter consciência de quanto espaço nossa voz toma e que experiências simplesmente não são as nossas.

"Mesmo se você é gender fluid ou sua sexualidade é fluída, rótulos são, por definição, rígidos."

Javier: Revelar que sou trans ou bi é uma escolha que posso fazer todo dia. O que não posso escolher é sair de casa como um homem latino. Já experimentei muito mais violência de gênero (principalmente da polícia de Nova York) assim do que antes de começar a transição médica. Era algo que eu gostaria de estar mais preparado para enfrentar. Parece que as pessoas que se envolvem mais em visibilidade sobre sua sexualidade são os brancos cis. Parece um luxo que pessoas não-brancas e muita gente trans não têm. Só quero sair no mundo e não me preocupar em ser atacado ou morto. Não ligo para o resto.

Ana: Um jeito como venho tentando pensar nisso é mudando as questões de autenticidade queer — se alguém é realmente queer ou não — para responsabilidade queer. Há certas ações ou valores que podemos nos responsabilizar como membros de uma comunidade?
Ales: Eu perguntaria: como posso encorajar uma sensação de segurança ao meu redor e na minha casa? Como posso contribuir com minha própria energia? No nível mais imediato, acho que é só uma questão de ouvir. Acho que só ouvir as pessoas e não tentar compará-las ou colocá-las em certa posição é crucial.

Há um nível de aliança performática e pessoas tentando surfar a onda da conscientização social mais do que realmente se importando com os outros. Não sei o que fazer sobre isso, exceto me certificar de não ser essa pessoa.

Whitney: Acho que há momentos em que verificação é importante. Eu estava na festa de Ano Novo do meu vizinho, e teve um momento em que notei que tinha muitas pessoas hétero na festa. O lugar é predominantemente gay e trans, e acho que vale a pena pensar em como você está literalmente ocupando espaço em festas. Há um limite, e em certo ponto outras pessoas não podem mais entrar, e para algumas pessoas, essa é a única festa em que elas são bem-vindas.

Davey: Isso me lembra de quem pode participar da Parada Gay. Acho que héteros precisam pensar três ou quatro vezes se deveriam ir a um evento queer, mesmo se outros queers os convidarem. Mas se o objetivo definitivo é se libertar de um tipo de patriarcado ocidental branco cis, isso não pode se resumir a "ter certeza que não há héteros na festa". Provavelmente héteros não deveriam estar na Parada Gay, mas se você é o tipo de hétero que vai marchar conosco, nos proteger e trabalhar conosco, podemos trabalhar num objetivo político maior de liberação.

McKenzie: Chegando à meia idade, isso não é mais um grande problema. Curto isso ou isso, então eu vou e lido com o que estiver acontecendo. É muito mais fácil. Entendo por que isso era importante quando eu tinha 20 e 30 anos, mas agora não estou preocupada se sou ou não dessa existência queer. Só saio para encontrar meus amigos.

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