Em Porto Alegre, Steve Wozniak fala com o MacMagazine: “Jobs me chamou várias vezes para voltar a trabalhar na Apple antes de morrer”

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Woz em Porto Alegre

Era a noite de um dia quente em Porto Alegre (tão quente, aliás, que o motorista do Uber sugeriu que eu tinha trazido o “verão eterno” de Salvador comigo — oh, se ele soubesse…). Os mais realistas poderiam argumentar que a frente fria que tomou parte do Brasil nos últimos dias tinha ido embora de vez, mas eu prefiro atribuir o calor a outra razão: a presença corpórea (e como corpórea) de Steve Wozniak na bela capital gaúcha.

Woz, como é carinhosamente chamado, dispensa apresentações; de qualquer forma, caso você tenha vivido embaixo de uma pedra desde 1976 ou coisa assim, aí vai uma breve introdução: foi nesse mesmo ano que ele, junto a Steve Jobs, fundou a empresa que é a razão de existência deste singelo site que você lê neste exato instante. Foi Woz o principal engenheiro e criador do Apple I, o computador que iniciou tudo, e do Apple II, o modelo que fez a Maçã estourar. No início dos anos 1980, o inventor deixou a Apple após algumas diferenças criativas e filosóficas com Jobs — mas foi o suficiente para Woz mudar o mundo e deixar seu nome gravado para sempre no rol de principais responsáveis pela revolução do computador pessoal.

Como anunciamos, Woz desembarcou em Porto Alegre para ser a estrela principal de um evento que marca o lançamento do mais novo curso de MBA da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), focado em Gestão, Empreendedorismo e Marketing. E, para representar o MacMagazine, eu estive lá com as outras mais de 2 mil pessoas na plateia para contar a todos vocês os detalhes desta memorável noite.

Antes da “atração principal”, por assim dizer, o evento recebeu no palco o britânico Neil Patel, guru do marketing digital que roda o mundo com suas palestras recheadas de dicas para quem quer obter sucesso na internet. No Centro de Eventos da PUCRS, não foi diferente: Patel, esbanjando simpatia, deu um pequeno mapa da mina para uma presença popular — e potencialmente convertida em retorno financeiro — na rede, respondeu perguntas e contou um pouco da sua história de vida. Um bom aquecimento para o que viria a seguir.

Woz em Porto Alegre

A apresentação de Woz começou com ares surreais. Uma banda, acompanhada de um pequeno coral, apresentou uma rendição de “We Will Rock You”, do Queen, que contagiou metade da plateia e deixou a outra metade estupefata (eu fiquei em algum meio-termo nestes dois extremos). O inventor, então, subiu ao palco sob uma tempestade de aplausos e explicou que teve essa ideia por saber o quão os brasileiros são aficionados de música, como ele mesmo é — e sempre foi, desde a época em que conheceu Jobs, quando os dois eram jovens hippies idealistas.

Após uma breve fala sobre sua trajetória na Apple e sua opinião, o mestre de cerimônias iniciou uma série de perguntas a Woz, que começou compartilhando uma informação inusitada sobre um item deveras improvável: seu cartão de visitas, que, ao contrário dos cartões de visitas de papel dos meros mortais como eu e você, é feito totalmente em metal com várias microperfurações — ou seja, é *o* cartão de visitas. Mas, segundo o inventor, a razão para a escolha inusitada do material não tem nada a ver com um possível desejo de o próprio querer se apresentar com um elemento quase tão épico quanto ele:

Meu cartão de visitas é de metal porque, depois do 11/9, você entra num avião e, junto ao seu bife, eles lhe dão uma faca de plástico. A faca de plástico não corta o bife. Então eu fiz um cartão de visitas de metal bem fino e eu corto os bifes. Os comissários de bordo dizem “oh, é um cartão de visitas”, eles nunca dizem “é uma faca”. E, de certa forma, este é um pequeno hack: encontrar formas de solucionar um problema que outras pessoas não pensariam.

Cartão de visitas de Woz

Cartão de visitas de Woz | Foto: Rafael Rosa

Woz, então, falou um pouco sobre suas perspectivas para o futuro da tecnologia e quais mercados ele acredita que serão transformados nos próximos tempos por conta dela. De acordo com ele, vivemos numa era digital em que a tendência é, cada vez mais, compartilharmos uma série de aspectos — no sentido de que nós não mais possuímos músicas ou conteúdo artístico em geral e em breve não possuiremos carros. Apesar disso, o inventor não arrisca um palpite — que, segundo ele, seria uma forma de “futurismo”.

Era muito difícil prever o futuro [quando ele estava na Apple]. Eu sou um engenheiro, pés no chão; eu me pergunto “como eu projeto coisas que funcionam?”. Se elas funcionam, elas fazem sucesso; se não, elas fracassam. Eu não gosto de fazer projeções futuristas sobre coisas muito distantes que podem ou não acontecer, como transportar pessoas em carros auto-guiados. Isso está muito longe, para mim. Eu vejo isso em livros, ficção científica. É fácil ser futurista porque você não precisa ser responsabilizado ou julgado hoje.

Sobre a singularidade, o fenômeno previsto — e temido — para algum ponto do futuro em que a capacidade de processamento das inteligências artificiais ultrapassará a da mente humana, Woz não compartilha do receio tão exposto por figuras notáveis como Elon Musk. Segundo ele, as máquinas fazem apenas aquilo que são programadas; é necessário seguir as leis da robótica de Asimov e, em teoria, tudo ficará bem.

Woz em Porto Alegre

Woz responde a pergunta do leitor Rian Dutra

Quando perguntado sobre o que acha do desempenho de Tim Cook no comando da Apple, Woz é deveras elogioso: afirma que a cultura que forma os pilares da Maçã continua intacta sob a sua gestão, além de ver uma série de qualidades em Cook em relação à sua defesa dos direitos dos consumidores e dos empregados da companhia. Afirma ainda que, com o atual CEO, a Apple segue sua tradição de lucrar com bons produtos em vez de obter seu dinheiro com publicidade, como certas concorrentes, e conclui com categoria: “Eu aprovo totalmente o trabalho de Tim Cook.”

Sobre Jobs, Woz afirmou que conheceu três versões do gênio durante a sua vida (será que ele foi o ghost writer do roteiro do filme de Danny Boyle?): a primeira foi o doce Jobs pré-Apple, um jovem já com a pretensão de mudar o mundo mas com uma abordagem muito mais abstrata a esta disposição. A segunda foi o Jobs do Macintosh, um jovem irascível, genial porém imaturo. A terceira, segundo o inventor, era quase uma amálgama das outras duas: ao voltar para a Apple, no final dos anos 1990, Steve estava muito mais dócil, porém com a mesma verve exigente e perfeccionista. Por fim, ele diz que, ao contrário do que se pensa, os dois nunca tiveram uma briga sequer — ao contrário, a relação sempre foi a mais amistosa possível, mesmo nos conturbados últimos meses de Woz na Maçã.

Em seguida, o engenheiro entrou num assunto deveras polpudo: os rumores (se é que ainda se pode chamar de “rumor” algo que já foi confirmado por Cook em pessoa) de que a Apple estaria trabalhando num software para veículos auto-guiados. A pergunta que levou Woz a entrar no assunto foi se a Apple estaria transformando-se na nova Microsoft — ao que ele respondeu:

Obviamente, uma companhia gigantesca como a Apple tem que estar envolvida com um mercado que será enorme como o dos carros auto-guiados. […] Mas o que eu sempre gostei na Apple é que eles sempre construíram o hardware e o software, e integraram estas coisas. […] E a Apple, de acordo com os rumores, fará apenas o software neste mercado. Isso é mais ou menos o que a Microsoft fazia enquanto nós construíamos o Macintosh. Eu vos digo, como engenheiro, é muito mais difícil integrar a tecnologia de uma plataforma de funciona em qualquer lugar. […] Portanto, é crucial que essa tecnologia da Apple seja tão melhor que todas as outras, caso contrário, não será uma experiência perfeita. Mas eu preferiria se eles estivessem construindo a unidade como um todo.

Woz diverte-se com um manual do Apple II original levado por um admirador

No fim, uma enorme fila formou-se no centro do auditório para que membros da plateia pudessem fazer perguntas a Woz. Dentre elogios rasgados e pedidos de autógrafos em memorabilia da Apple, uma pergunta chamou a atenção — quais seriam, afinal, os produtos da Maçã favoritos do seu cocriador? Após mencionar o Apple I, o Apple II e o Macintosh, o inventor falou do iPhone — mas com uma consideração importante:

Então eu pensei: minha vida mudou mais por causa dos apps de terceiros [para o iPhone]. Então eles afetaram mais a minha vida do que o iPhone em si. Tudo está conectado — o que seria do iPhone sem a internet? Portanto, colocando tudo junto, seria o iPhone combinado à App Store.

Rian Dutra com seu Apple IIe autografado por Woz

Nosso leitor Rian Dutra com seu Apple IIe autografado por Woz

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Findado o evento, os jornalistas, blogueiros e VIPs foram convidados a uma pequena after-party com Woz em pessoa. Foi nesta pequena singela festinha regada a espumantes que eu consegui me esgueirar entre as dezenas de pessoas em volta do inventor, todos tirando fotos e puxando assunto, para fazer uma pergunta nossa.

MM: Woz, você consideraria hoje voltar a trabalhar na Apple para o desenvolvimento de algum produto?

Woz: Eles já me chamaram algumas vezes. O próprio Steve [Jobs] falou comigo algumas vezes, antes de morrer, me convidando para voltar, mas eu sempre disse “não”. E eu lhe digo o porquê: o foco da Apple hoje não é algo pelo que eu tenha particular interesse; talvez eu considerasse desenvolver um produto com eles mas provavelmente não daria porque eu cobraria muito caro [risos] e de qualquer forma eu prefiro fazer o que eu faço, que é pensar na tecnologia e rodar o mundo falando sobre ela, conversando com pessoas como você.

Por fim, como não poderia deixar de ser…

Pensem bem no significado deste pequeno vídeo: este homem é parte da razão de existência do MacMagazine; sem ele, eu não estaria aqui escrevendo estas linhas e você não estaria do outro lado da tela lendo o que nós temos a dizer. E agora, 41 anos depois de cocriar uma das maiores empresas do planeta, aí está ele, dirigindo-se a nós. É como dizem: o círculo se fecha.

Que noite, meus amigos, que noite.

Bruno Santana viajou a Porto Alegre (RS) a convite da PUCRS e da UOL Edtech.

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