Os resíduos do horror

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Quisera escrever apenas sobre o agradável e o bem — grandes descobrimentos da ciência e atos de bondade ou solidariedade humana e, assim, superar a perplexidade geral destes anos do Século 21. Mas olho ao redor e diviso quase só maldades. Umas à mostra, outras ocultas sob o amparo da visão burocrática dominante nos aparelhos do poder — seja na área pública ou privada.

Como esquecer, ou deixar de lado a tragédia que neste 5 de novembro completa um ano e marca nosso escárnio frente à vida?

O rompimento das barragens de resíduos de minérios da Samarco, em Minas Gerais, ocorreu a quase 2 mil quilômetros daqui, mas é como se houvesse sucedido "na esquina de casa", sob nosso nariz. Lá está a radiografia da desídia, da tresloucada ânsia de lucro a qualquer custo da empresa anglo-brasileira (com sede na Austrália), aliada à nossa impostura governamental.

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A espantosa antevisão de "fim do mundo" do Apocalipse de São João não conseguiu descrever o horror terrorífico de morte e destruição concretizado nesse desastre que a cobiça humana preparou, montou e desenvolveu. Como se não bastassem os desertos de crateras criados pela mineração antes da tragédia, a lama ácida apropriou-se de tudo com o rompimento.

Destruiu o povoado de Bento Rodrigues, matou duas dezenas de moradores, invadiu bosques e cultivos (hoje desertos), subiu ao topo das árvores, exterminou fauna e flora. Ocupou córregos e rios. Transformou em depósito de metais pesados o imenso Rio Doce, agora poluído por séculos afora — a areia das praias e a terra dos barrancos misturando-se ao chumbo, mercúrio e outras pestilências.

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Hoje, impermeabilizado pela lama pegajosa, o leito do rio é marrom e suas águas chegam mortas ao oceano. A lama ocupa praias e se expande em todas direções. Ao Norte, foi vista na Paraíba. Ao Sul, no Estado do Rio de Janeiro.

A devastação foi provocada pelos resíduos de duas "barragens" e outras cinco lá estão e podem multiplicar o horror. Houve "obras novas de contenção", mas persiste a origem de tudo — os métodos de exploração são quase tão primitivos quanto nos anos 1700, no Brasil Colônia, mesmo com a aparência dos gigantescos caminhões de transporte.

As minas são concessão do Estado e os órgãos governamentais impuseram à Samarco multas de bilhões, que nunca serão pagas e se diluem em intermináveis "recursos" judiciais. E se fossem pagas, isto recuperaria a natureza assassinada?

Nada se impôs, porém, para modernizar a exploração, para que a mineração não seja só maldição lucrativa a céu aberto. E, assim, o maior crime praticado nas Américas por mãos humanas contra a natureza e a vida continua a ser encarado como acidente.

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Acabamos de sair da eleição de prefeito e a maioria devia estar eufórica, na esperança aberta pelos resultados. Ocorre, porém, que a votação de Marchezan, o eleito, foi inferior ao número dos que se recusaram a escolher um candidato. A notícia deste jornal sobre o resultado supera qualquer comentário:

"Em Porto Alegre, 402 mil eleitores escolheram Marchezan e 262 mil optaram por Melo, mas o maior contingente não ficou com nenhum dos dois. A soma das abstenções, brancos e nulos foi além de 433 mil — ou 30 mil a mais do que os votos dados ao candidato do PSDB. As 277 mil abstenções superaram os votos de Melo".

Enganei-me na semana passada ao indagar qual dos dois M teria mais votos: o mais votado foi N — "Ninguém".

Noutras capitais também N — "Ninguém" — superou o eleito: Rio, Curitiba, Belo Horizonte. E até São Paulo, que elegeu prefeito no primeiro turno.

O protesto marca a desesperança pelos métodos atuais da política, que, a continuarem assim, serão tão devastadores quanto os resíduos do horror em Minas.

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P.S. — Na terça-feira, dia 8, participo do 6º Fórum de Sustentabilidade da Associação de Dirigentes Cristãos de Empresa (ADCE), no painel de debate sobre "A comunicação que é vida — na natureza, entre os homens e em Deus", com início às 16:30 h no auditório do Hotel Plaza São Rafael.

O 6º Fórum retoma a discussão de um tema crucial em que a ADCE foi uma das pioneiras entre nós.

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